Preparando o paletó de madeira
Muito se disse a respeito das tentativas frustradas do fumante tentando parar com seu vício. Entenda, em não sendo um José de Alencar da vida afora, escrever sobre cigarro e sobre sua falta é tarefa exclusiva de fumante ou ex-fumante. Isso passa a se tornar um viés de abordagem quando a pessoa está como hoje estou eu: na primeira semana da tentativa. Mas há algo de bom ainda, para os meus botões que precisam de autoconfiança: esta é a primeira vez em que tento.
Se mais à frente eu, sem querer, fique claro, deixar escapar que já tentei antes você entenderá mais claramente o que quer dizer o viés descrito acima. Tento me convencer de que sou capaz lembrando de contos e histórias, principalmente os do Fernando Sabino, que sei que passou por maus bocados tentando fazer o que para o fumante é o fim de tudo, da vida, da esperança, da bondade dos homens; não há nada pior.
Tento pensar na história que conta ser o cigarro como aquela amante valiosa que em algum momento tivemos em nossas vidas e que partiu sem nos dar muita escolha. Nos primeiros dias você se encontra em tamanho desespero, desapego, que pensa não conseguir viver mais algumas horas. Mas na semana seguinte o sentimento vai se transformado, o pior fica pontuado por lembranças específicas, únicas. E, eis que depois de seis meses não passa de uma lembrança escassa, fraca e você se pergunta como é que pode sofrer tanto por uma que não vale nem um almoço perdido, quanto menos ainda uma boa noite de sono.
Mas, vejam, pessoalmente não posso ainda compartilhar dessa idéia, isto é, da correlatividade dos sentimentos, é certo que já tive algumas decepções amorosas, mas ainda não as posso comparar com o tempo necessário para esquecer do cigarro. Aliás, uma das coisas que me espanta nesse esforço todo se relaciona bem com isso, com essa história e com a minha dificuldade de relação: Apesar de possuir amigos que fumam, não tenho nenhum que tenha parado de fumar, a sério logicamente, sem aquela brincadeira que diz que parar de fumar é fácil, eu mesmo já parei umas dez vezes. E estes amigos fumantes me olham com uma reverência quase religiosa, distante da realidade, respeitosa.
Não precisam explicar, eu sei do que se trata, e se daqui a seis meses eu me lembrar com ar de brincadeira sobre este sofrimento atual quem mais poderá se surpreender com o sucesso da operação serei eu mesmo.
Mas no entanto há algumas considerações a serem feitas. É muito mais fácil, primeiramente, continuar fumando, que besteira estou dizendo. Mas vamos por outro prisma. Desde que decidi parar de fumar, há mais ou menos uma semana, tenho, por vezes, fumado um cigarro durante a noite. Mas apenas um, e apenas à noite. Sem entrar no mérito da questão, logicamente, percebo que quando fumo este cigarro me sinto mais tonto, mais avoado do que antes. O que me coloca em uma situação inusitada: Não tenho mais para onde ir, tampouco de onde voltar. Não me deixo fumar mais do que um cigarro, ainda me considero como um ex-fumante inicial. Não posso passar com a vontade sem fumar e não posso me sentir bem com um cigarro, que atende a essa vontade. Teria sido muito, mas muito mais simples que esta brilhante idéia não tivesse me ocorrido.
Isso é mais ou menos como descobri o funcionamento dos regimes para emagrecer. Até certa idade, você precisa apenas fazer algum exercício, não importa o que coma. Aliás, até uma certa idade, o que come não importa nada para sua condição de gordo, aliás não muito. Bom, a partir de certo ponto, você começa a engordar em lugares específicos, como as laterais de seu corpo, e isto, principalmente se ainda não é casado, começa a preocupar um pouco. Então você recorre a uma academia, mesmo porque já estava sedentário há um tempo razoável. Começa a malhar e não resolve.
Começa a perceber que para emagrecer precisa mesmo é de regime e exercício, senão funciona assim: quanto mais você se exercita mais fome sente, se come mais, a idade faz com que engorde mais ainda. Então seria melhor não se exercitar? Se não o fizer, também continua engordando. Na verdade, não há muita escolha mesmo.
Conforme a idade avança, as opções diminuem, as restrições aumentam, e não há nada que se possa fazer efetivamente, deve-se viver com elas, deve-se aproveitar enquanto se é jovem. Fico imaginando onde está a razoabilidade de se afirmar que a vida começa mesmo aos quarenta. Bom, deve haver apenas duas justificativas para isso: Ou a pessoa fumou e bebeu e se divertiu até os quarenta ou então se leva dez anos para se acostumar com as privações, que começaram aos trinta, quando você parou de beber e de fumar e de se divertir. Você deve estar pensando então que a vida deveria começar ao cinqüenta, aos sessenta e assim por diante dependendo de quando se restringem os divertimentos. Mas aos quarenta não dá muito mais tempo para estas considerações, então é melhor parar de uma vez mesmo e se convencer rapidamente.
A falta de cigarro não me parece tão assustadora na medida em que existem, por exemplo, os adesivos de nicotina, os transdérmicos, que fazem com que a vontade praticamente desapareça. Sem considerar o que acontecerá quando parar de colar estas coisas no corpo, pode-se viver, bom, viver é um otimismo, pode-se passar razoavelmente bem sem o cigarro. O que mata é reaprender a viver sem o hábito. Você não sabe mais se é a falta dele, se é você, parece louco e por aí vai. Eu comecei a descobrir umas janelas de quatro, cinco horas na minha vida onde e quando nada acontece, e que antes eram preenchidas com o ato de fumar. Isso é terrível, desproporcional até, na medida em que imagino que não fazia nada, ou se fazia era parte pelo prazer dividido de um cigarro. E aí de novo, seria eu ou seria a falta?
A única esperança é de que um dia passe. Mas isso sem contar com as sabotagens que o inconsciente executa, como por exemplo, o cigarro que às vezes eu fumo durante a noite. Não deve realmente fazer mal, não como um maço durante a noite, e não deve realmente fazer tanta diferença (técnica) no esforço de parar, desde que estou tomando doses para cavalo de nicotina com os tais transdérmicos, mas esse cigarro desmerece meu esforço, coloca uma ponta de dúvida na capacidade, e eu não estou mais seguro da minha decisão.
Agora, pensando melhor, se essa miséria não passar eu talvez volte a fumar, talvez o mal feito pelo fumo não ultrapasse o mal feito por esta abstinência, como na história do condenado à morte por fuzilamento, defronte ao pelotão de execução, quando o carrasco oferece como última regalia um cigarro e o prisioneiro recusa dizendo "não, obrigado, estou tentando parar." O que nos traz a uma questão bem mais óbvia e fácil, mas evitada na medida que é a mais problemática, no entanto: Fácil mesmo teria sido se não tivesse começado.

Um comentário:
Former smoker begginer, essas, das quais tu falas com tanto desdém são, para mim, as que realmente valem nessa miserável e sofrida passagem pela vida. Depois que se vão é que mostram de fato o tempero que, mesmo que por pouco tempo, deram à nossas vidas.
Sim, é fato, ando amargo com a vida feito uma boa Ale irlandesa, mas não há como negar que, apesar de sofridas, essas lembranças sempre têm um quê de saudosismo, como aquele último que você pode desfrutar sem o sofrimento premeditado da separação.
Boa sorte nessa nova empreitada e espero que não fiques tão mal-humorado quanto nosso amigo fugu...
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