Será que o Clyde se lembra disso?
O bisavô de um grande amigo meu sempre teve muito prazer em relatar esta estória, que ele ouviu de sua mãe e que, agora, passo a contar. Considerando os noventa e seis anos, doze dias e dez horas que o separam das entranhas maternas, o velho consegue, do alto de sua cadeira de rodas, dar credibilidade a esta curiosa narração, pela lucidez e pela riqueza de detalhes idiotas que permeiam seu relato. Cá entre nós, tudo isto me cheira a mer(d)a (e) ficção. Entretanto, em respeito aos cabelos brancos que habitavam a extensão do que, hoje, é sua careca, e por se tratar de uma estória bem interessante, dispus-me a lhe prover sobrevivência, já que ninguém mais tinha saco para contá-la.
Pelo que me lembro, tudo começou quando Nora, mãe de Élcules, bisavô de Rodrigo, meu amigo, morava na Bélgica, na década de oitenta, do século passado. Andava um pouco cansada de seu casamento com o Sr. Morraine, que já durava uns belos doze anos, com quem tivera, até então, cinco filhos, dos quais três estavam mortos. Sendo mulher culta, de formação clássica, não tolerava a idéia de passar o resto de sua vida alheia ao mundo, tomando chá com amigas que não sabiam sequer jogar gamão ou quem era Nicolau Vasilievich Gogol. Por essas e por outras, o fato de ter se transformado em Sra. Morraine se havia provado uma coisa: beleza e virilidade não tornam o casamento algo palatável. Não interessavam mais os traços do rosto de seu marido, seu corpo de Adonis ou sua masculinidade gritante; os dias lhe plantavam pés-de-galinha na face – era preciso fugir da mesmice. Foi aí que teve a brilhante idéia de voltar aos estudos, mesmo que fosse para aprender francês, como aconselhara seu esposo. Morando no norte do país, falava holandês e arranhava alemão; como o curso era barato e o francês é uma das línguas oficiais da Bélgica, acabou se matriculando com um professor particular, arranjado pelo Sr. Morraine.
Nora era a primeira a se matricular no tal curso, e acabou, mesmo, sendo a única a se interessar por tal assunto. Nos dias que antecederam a primeira aula, hesitou entre levar a cabo sua matrícula ou continuar sua tediosa existência. Decidiu que não tinha nada a perder e que, portanto, deveria, pelo menos, assistir às aulas que já estavam pagas. Esta decisão, porém, mostrar-se-ia errada.
Logo nos primeiros minutos da primeira aula, numa quarta-feira chuvosa, sentiu que estava profundamente atraída pelo professor, um holandês ruivo, baixo, sem nenhum appeal e, para falar a verdade, muito chato e estranho. A coisa foi meio rápida, mesmo. Mal o cumprimentou pela primeira vez, e já estava reparando em suas mãos, seus ombros, queimando sua fisionomia nas retinas para que não mais se esquecesse de seu rosto. Você sabe, era uma daquelas paixões que não medem conseqüências e que vivem a ofender a lógica. Por mais asqueroso que fosse o tal professor, os olhos de Nora tratavam de corrigir este ou aquele defeito, que no caso, eram extremamente numerosos, e olhe que só estava levando em conta o aspecto da aparência. Retomando esta estória, saliente que o professor atendia pelo nome de Vincent, e parece que estava na Bélgica vindo da Inglaterra, onde havia lecionado antes; pelo que se sabia, Vincent estava lá para resolver certas questões religiosas, com mineiros da região, numa espécie de pregação do Evangelho, o algo que o valha. E, também, não vem ao caso discutir o que fazia lá ou aqui; interessa que Vincent começava a notar algo diferente, um certo… odor (:). Por mais desligado que fosse, notou que a Sra. Morraine se mostrava, digamos, atenciosa para qualquer, movimento que fizesse, para cada sílaba que pronunciasse, até mesmo para coçadinhas, que vez por outra, dava nas costas. Calculou, após esforço considerável, que se tratava de um dos arremedos do coração, sendo ele mesmo o sujeito passivo (pelo menos por enquanto), da paixão que a aluna alimentava... [...]
É isso aí, Clyde, esse é o seu "O Filho do Pianista".
A continuar.

Um comentário:
Isso aqui tá mto legal, oreia!
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