20.11.04

NÃo se viam há muito tempo. Pois se encontram os dois no meio do Central Park, olhando para dois velhos que jogavam xadrez. Muitos abraços depois, e depois de relembrar os velhos tempos de faculdade ali mesmo no bar da esquina, combinaram: “Estava mesmo com vontade de subir no Empire State.” “Então vamos”, respondeu o Nacca. Sentiam-se um pouco mais ligados, agora, sem aquele sentimento estranho que se tem quando todos falam uma língua que não é a sua. E foram. Agora estavam os dois lá, no último andar do prédio mais alto da cidade, olhando para o parque. Um pouco já bêbados que estavam, o amigo chega assim meio de soslaio para o Nacca, como se fosse fazer uma confissão e diz baixinho: Aposta que eu posso voar?
O outro deu uma chacoalhada na cabeça como a dizer “agora deu de brincar comigo?” e desatou a rir. Para sua surpresa, o amigo não esboçou nenhum sinal de graça com a frase, e até parecia um pouco indignado. Sob o silêncio perplexo do outro, disse: “Não há brincadeira alguma, duvida?” ao que o Nacca respondeu, “Tinha graça, aposto!” “Então está feito!”

Então estava feito, não havia mais volta, era uma questão de honra. Dirigiram-se para um canto vazio do lugar, olhando para trás como crianças. O amigo subiu devagarzinho, cambaleando em cima das várias cervejas que havia tomado, no parapeito do terraço e escalou a grade de proteção. Abaixo, muitos metros de queda livre e algumas nuvens meio desfeitas em sua baixa altitude. Era realmente muito alto, o World Trade Center.
Ficou pendurado na grade, os pés no beiral e apenas uma mão a segurar o corpo penço no espaço. O Nacca começou a ficar nervoso, onde já se viu, deixe para lá que alguém ainda se machuca de verdade... O outro ria, excitado, e olhava para os lados: “Veja se não vem alguém, olha o guarda lá!” E balançava. O outro começava a ficar desesperado.
– Está bem, eu desisto, desça daí antes que aconteça uma tragédia! O outro ria: “Oba!”, gritava.

O Nacca não sabia mas o que fazer: Não teria coragem de subir para resgatar o outro, e não conseguia enxergar ninguém por perto. Tentou se aproximar do parapeito, mas ao ver os carros minúsculos lá em baixo, na rua, sua visão embaralhou. Não devia ter bebido tanto, agora não podia fazer nada. Olhava em volta e o chão faltava sob seus pés. Suava frio. Começara a repetir sem parar para que o outro descesse dali, está bem, você venceu, a aposta é sua... Meu Deus, ele conhecia sua mulher, seus dois filhos, que tragédia!

Já desistindo de pensar, os olhos embaçados, o Nacca viu o amigo abrindo a única mão que o prendia ao Sears Tower. Avançou num grito sufocado em direção à grade e viu o homem caindo, rápido, os braçinhos abertos chacoalhando no ar; o viu se aproximar de uma nuvem baixa, e então bater com a barriga nela e ser impulsionado de volta ao espaço, fazendo uma volta grande e suave para trás, como se tivesse sido empurrado por uma gigante mola escondida, finalmente voltando ao terraço, caindo em pé, meio arqueado ao seu lado, com um pequeno suspiro: “Ufs!”
– Menino, já tinha quase me esquecido de como isso é bom!
Agora é que fiquei louco de vez, pensou o Nacca, debaixo do olhar de estranheza do outro.
– Que é que foi, rapaz? Parece até ter visto uma assombração, está branco como um queijo...
O Nacca não conseguia articular qualquer palavra, tentando pegar a respiração. Ao que o outro diz “Vamos logo que os homens aqui não se dão para essas brincadeiras.”

E desceram. Ao se despedirem, o Nacca de súbito disse “Sabia que você foi um dos melhores companheiros que pude ter naquela época?” O outro hesitou, sem saber o que dizer: “Verdade, oras? Obrigado” E se separaram.
Já dentro do táxi, para o hotel, pensou que ele mesmo sempre tivera muita vontade de voar. De algum modo sentiu que havia conseguido, hoje.
Mas nunca contou para ninguém, evidentemente.

3 comentários:

Anônimo disse...

Nacca meets Clark Kent?

Anônimo disse...

Nacca encontra LANTERNA VERDE.

Anônimo disse...

"Mas nunca contou para ninguém, evidentemente." foi show de bola...