28.5.06

Passaram-se quatro anos desde que ela se foi. Não parece muito tempo. Naquele dia eu havia saído a um bar para beber algo, estava muito sozinho aqueles dias que quase completavam um ano de cidade grande. Todos os amigos ficaram bem longe, as namoradinhas também. Quisera eu ter de novo aquela sensação de estar praticando algo de qualquer modo sujo e proibido com as meninas da cidade do interior onde ficaram todos eles. Hoje eu já não tenho qualquer sentimento de culpa e, apesar disso, essa permissividade me oprime quase a ponto de chorar. Nunca pude estar sozinho. Não era uma escolha: – Lembre-se, Rodrigo, passando de certo ponto não há mais escolha, só desistência. Restava saber onde ficava tal ponto. Me lembrava uma piada de criança que eu escutava quando estava no ginásio. “Até onde pode-se ir floresta adentro para que não valha a pena voltar?” E respondiam “até que ultrapasse sua metade.” E riam. Gostaria de saber se ririam hoje. Não creio.
Tudo parecia dar tão certo. Tudo daria certo. Não há mais certeza disso. Eu não a tenho mais. Lembro-me que dizíamos, depois de decifrar os segredos do Universo nas conversas de fim-de-noite “algo de bom teremos de ser algum dia. Não é possível que estes estróinas que não têm nada na boca e na cabeça possam ser melhores.” E o que fazemos hoje? Nada mais do que isso. Ainda consigo dar o amor que sempre tive? Na verdade, não sei se um dia ele já esteve perto de mim, não até que me lembro dela, lá de cima, e a certeza, se já não verdadeira, mas sorrateira aparece.
Então eu bebia. Uma vez vi um bêbado segura e horrivelmente vestido numa esquina da Rua Augusta às duas da tarde, com um copo de cerveja na mão.
Saindo do bar, ela veio na minha direção; não conseguiria dizer se já havia percebido sua presença, bêbado que estava. Me beijou, e em dez minutos ela estava no meu apartamento no centro, e todas, todas as roupas voaram pela sala.
Mais tarde ele me perguntou sobre as minhas roupas. Sobre todas elas. Ela me perguntou sobre várias coisas. “O que você gosta de escutar? Quero dizer, música” Respondi seguindo o manual de sempre, “Gosto de música negra das décadas de 50 e 60 americana”, enquanto o rádio tocava Smiths. E assim a noite passou. Sentia que tinha de agradá-la. Por querer tanto a ela parecer não impróprio, não era eu, nunca agora. E ela me entendeu como era de um modo que eu jamais compreendera, e jamais compreenderei.
Já quase perto do sono, quase sem escutá-la, ela me perguntou mais uma vez “Rodrigo, você acha que suas camisas pretas sujam menos que suas brancas?” E riu. E eu não respondi. Não tive mais do que sono, naquela hora.
Acordando, do sonho, não a vi, pensei, estará no bar, voltará, sim, manhã que já era, saiu para comprar algo. Logo no interfone, ouvi do porteiro que “A moça de vermelho? Saiu...” E estava de bolsa? Sim, foi comprar algo.
Da janela eu a vi. Não saberia dizer se era um casaco ou vestido vermelho, mas o táxi o pegou no meio fio, e ela se foi, e eu fiquei olhando a rua, para cima, para a chuva, com a garganta cheia, com a cabeça pesada e o ânimo em algum lugar no passado.
E eu tento, realmente, não agradar a mais ninguém. Meus amigos estão longe, as namoradinhas também. Quase me lembro de escutar o porteiro dizendo que ela chorava.
E não faz muito tempo. Na verdade, parece que ela sempre esteve aqui.

Um comentário:

Asceta disse...

Segundo