Brincando nos Campos do Senhor
A imagem é nostálgica, na lembrança: o velho apartamento numa avenida quase no centro de São Paulo, seus quartos entulhados, livros em estantes de ferro, daquelas de escritório, colchão no chão. Quando o primeiro computador chegou foi um êxtase, a tela branca, as letras podendo ser apagadas e redigitadas. A impressora. Só nessa semana escrevemos uns dois livros, só de contos, como se a inspiração estivesse ali, em cima da escrivaninha de compensado, apenas esperando ter um botão apertado para preencher nossa imaginação, a impressionantes 33 megahertz por segundo, no turbo. E entanto é ela que me faz escrever hoje novamente, como se não houvesse escrito o bastante naquela noite, recuperar algo que o tempo já levou, na verdade.
Sentíamo-nos com aquela característica rebeldia adolescente, que encontra comburente na transgressão boba de não estar mais na casa dos pais, de fazer o próprio horário, de ficarmos acordados até de madrugada, comer pizza no almoço. Conhecíamos bares estranhos e nada parecia sem sentido, éramos a alma pura de permeabilidade, ríamos e encontrávamos respostas filosóficas para os acontecimentos mais fúteis, entre piadas. Coleções de livros em sebos, A História do Pensamento Filosófico, um disco do Big Bill Broonzy, um churrasquinho na padaria, nada encontrava freios naquela pequena convulsão estimulante. Éramos jovens para sempre, éramos ateus para sempre, éramos bem sucedidos, sempre. Os carros escassos na avenida, voa pela janela um disco do Belchior: Tem medo de avião então vai sem pára-quedas mesmo. Um carro passava por cima e lá se foram os nossos pais. As prostitutas nos táxis, o farol vermelho para o trânsito, inexistente, farol verde para a faixa de pederastas, o bêbado olhando para um lado e para o outro, atravessando na frente de uma Kombi de jornal. Alguém vai ficar sem ler as tiras pela manhã. Nós teremos mais uma manjedoura de traças no quartinho do fundo. A dona do bar no pé do prédio já sabia todos os procedimentos de emergência de coração, ligava o 193.
Garotas, nenhuma.
Podíamos rir da instituição do casamento por horas, e ficávamos apostando em quem morreria primeiro.
O começo da noite era magistral. A saída da Faculdade de Direito no centro, a visita ao amigo, as Colunas, os bares com aquela alegria efêmera porém no auge do happy hour dos estagiários de escritórios de advocacia, dois anos de formados, não entendíamos. Andar no meio-fio e pegar o ônibus no terminal Bandeira, um pouco mais tarde, deixa só eu respirar mais um pouco deste ar com cheiro único, de hora marcada. Vamos àquela festa: Roubávamos as três primeiras páginas de um livro do Baudelaire, As Flores do Mal: Le plus savant et le plus beau des anges, Dieu trahi par le sort et privè de Louanges. Não podíamos sequer imaginar a extensão do poder daquelas poucas tantas palavras que não compreendíamos. Hoje parece tão fácil, no entanto faz tão pouco sentido.
Não tínhamos consciência do que era o mundo, apesar de nossa percepção ser aguçada. A ignorância em relação às coisas que nos cercavam tornava a experiência de viver um acontecimento afiado, contundente, claro, apaixonante, contraditoriamente. Para isso não achei resposta cabível, ainda hoje. Talvez esteja pensando com cabeça de homem sobre a atitude de uma criança. Isso, porém, ao meu ver, reforça a antítese.
Mas, na verdade, nunca apostávamos em quem envelheceria primeiro.
Poderia ser por acharmos que tamanho absurdo nunca aconteceria, mas não tínhamos preconceito algum, por outro lado. Acho que, no fundo, sabíamos que dia ou outro aquilo se perderia, nossos pais estavam lá para provar, o que não configurava tanto absurdo; no entanto, havia a perfeição, e ela era indiscutivelmente atacada diariamente, por nós mesmos, não era possível, mas era perfeitamente plausível, que durasse por todas as nossas vidas.
E este texto teria se transformado na glória eterna se escrito naqueles tempos.
*Clyde

Um comentário:
A juventude recorrentemente nos leva a pensar a vida de uma forma enviesada e essa é, provavelmente, sua maior qualidade.
Continuar a nos questionarmos o que não sabemos desde aqueles idos anos é, talvez, a melhor maneira de não a deixarmos partir.
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