4.11.05

Ainda sentia o peso de toda a semana no peito, quando mais uma interminável vez repassei minha lista de compromissos mentalmente. O final de semana e início das férias se aproximavam do que havia sido por alguns anos passados em minha vida profissional: Apenas um intervalo entre nós desatados, dissipados entre comprometimentos profissionais. Antes de agora, enquanto apenas o trabalho parecia fazer sentido, menos os finais de semana o faziam. Longe de ser um tempo de descanso este era antes um período inerte, como se esta desaceleração fosse proporcional inversamente à satisfação do dever.

No avião, os fatos do dia, estampados na tela em formato de legenda para os passageiros, desenrolavam-se num otimismo constrangedor. As últimas descobertas da ciência, os avanços da medicina. No rosto daquela gente cansada, desiludida, de cerne duro estampava-se o desconforto de ter de compartilhar a boa experiência do entrevistado que se salvou da síndrome que o matava; hoje era um novo homem, era liberto, passava mais tempo junto da família, coisa que antes as intermináveis viagens de cidade em cidade, de um trabalho para outro não o permitiam. Esta impossibilidade, esta desgraça de falta de malícia na passagem do documentário na cabina executiva do vôo que tomara ficara mais evidente à medida que o dia terminava desenhado nos cernes franzidos.

O tempo passa mais lentamente quando estamos em vôo. Talvez possamos ganhar 0,1 segundo de vida depois de voar durante 80 anos.
Viver com a certeza da morte requer mais vida do que viver. No entanto, qual o sentido de alguém que processa seu ex-empregador por que este o demitiu após saber que o empregado estava com AIDS, por assim dizer? De nada nos vale a possibilidade da imortalidade. Se a nos dessem, viveríamos para sempre com a dúvida de sua existência. E ainda assim sua busca permanece em sua parte, complexa como um fractal, simples como um antioxidante no bolso do terno, surpreendente como o salto no passado naquela cabina.

O trabalho, assim como nos colocado e assim como presente em todos aqueles rostos desfigurados pelo cansaço, pelo sucesso, pela fraqueza, pela incerteza, pelo acerto, fica indissociavelmente ligado a nossa capacidade de viver. A trágica inversa, neste caso, é a paz de espírito em sua falta nos fazendo perder o interesse nas tarefas diárias. O fato, a consumação passa longe da necessidade de se ocupar frente a um problema indissolúvel. Se ocupar de viver é apenas uma escolha de quem pensa na vida, mesmo frente à morte, e muito menos uma escolha heróica em face do inevitável. Eu passava meus dias entre a TV, o sonho e a tentativa.

O avião pousou, e naquele dia cinzento que terminava quente na noite espessante eu peguei minha bagagem de mão, arrumei a mala no desembarque em um carrinho que tinha estampado uma propaganda de cartão de crédito: “A maior força do mercado. A maior solidez do mercado.”

Não contive a gargalhada.

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