Sempre senti uma incapacidade nata em relação à música, de um modo geral e extenso, e nunca me abandonou a triste atração que sinto por ela. Como um velho casal que não confidencia, vivo de modo permanente ao seu lado; eu sem a entender, ela sem se entregar. Two lovers missing the tranquility of solitude.
No entanto, neste entremeio, nesse interregno, nos lampejos de clarividência eu, tentando compreendê-la e, portanto, compreender-me simultaneamente (quando nós olhamos para uma ex-namorada qualquer a quem não mais reconhecemos não reconhecemos a nós mesmos, antes dela), usei dela para escrever diversos impropérios, assim como esse, ora, agora. Resta-me o consolo de que o problema pode ter sido comigo.
Então vamos lá, prêmios a quem traduzi-los todos:
1) Eu levava as aulas de música na flauta
É estranho que qualquer um possa tentar compor, ainda mais quando não sabe ao certo o que é isso. No entanto, quase como todo o resto das atividades individuais e personalíssimas, não se pode tolher esta tentação e este estímulo aos mais desavisados e inapreensivos. Vemos que há muitas histórias de empresários, secretárias, escrivães, estagiários bem sucedidos, inteligentes para aquilo que fazem, apenas, e reconhecidos. Mas não acontece assim com o compositor, com o médio, de final de semana, de impulso momentâneo, de tentativa. A ferocidade com que se ataca a menor tentativa musical é, no mínimo, desmedida, senão velhaca, permissiva, incoerente. Não deveríamos agir ao contrário? Incentivar, corrigir, publicar, elogiar ao invés de desmesurar, malhar, maltratar a tentativa do estagiário, do escrivão? Na verdade, o mundo da música não comporta amadores, na verdade, quero dizer no mundo da música composta. Há outros mundos de compositores, mundos onde a composição, por mais presente que esteja, não é o objetivo final da música. Todos temos de nascer profissionais, ou procurar outro lugar para pendurar o fone. Todos digo eu, claro.
2) Carro do ano e mesada da década passada
Sempre me senti depreciado em escutar músicas que tocavam mais do que seis vezes em uma semana na rádio pretensamente rock. Nunca pensei que poderia sentir-me mais depreciado caso não levasse a sério o descanso sagrado semanal, qualquer que fosse o dia. Mas ainda assim, gostava de acreditar que cada música fora feita especialmente para mim; de um lado isso demonstrava ainda mais o tipo de psicose da qual sofria. No entanto, por outro lado, poderia dizer que este descontentamento com o pensamento comumente aceito era de algum modo vantagem intelectual, desde que utilizado de maneira correta e dentro do círculo específico de pessoas. Por essa razão mesma que acredito, nunca me relacionei bem com garotas que entendiam de música. Era, por vezes, impressionante, que uma delas tenha me dito uma vez que, ao se aproximar de um rapaz em um bar qualquer em São Paulo, cheia de tesão e, irresponsável, tenha afirmado “se você for tão inteligente quanto bonito eu te beijo agora mesmo” ao que o varão engata uma explicação broxa sobre inteligência emocional, a grande desgraça da década passada, e que isso não funcionou de acordo. Bem, perguntei a ela, e se ele tivesse, por exemplo, respondido que provavelmente nem sua própria mãe o achava tão bem feito nas feições? Bom, neste caso, ele receberia seria um belo de um tapa. Então estava explicado, melhor era escutar Queen de vez em quando em viagem, e compartilhar um pouco a cama de alguém que me permitia por vezes a utilização de fones de ouvido.
3) A Heartless Hand on my Shoulder
Com seus longos cabelos loiros e com o azul de seus olhos a única coisa que ela me trouxe foi sofrimento. Nunca deveria ter aceitado retirar meu cinto no primeiro encontro. Mas ele machucava sua cabeça, como disse, apoiada em meu colo; deveria estar olhando a falta de lustre à volta da lâmpada no teto da sala. A inconveniência trazida ao máximo da propriedade: Na verdade, a minha única saída teria sido ter escolhido um cinto de fivela menor. Mas a época era boa. Pouca gente gostaria de se lembrar com freqüência, mas as coisas que mais me satisfaziam eram luz baixa, rádio baixo, texto no computador e alguma bebida gelada, aos litros. Se tivera de conversar com alguém, a ligação demora duas horas. Eu chegava em casa depois de ter trabalhado mais duro do que em qualquer outra vez em minha vida e parava no centro da sala, quieto, olhando o nada pela janela, sentindo aquele prazer enorme que se tem quando se está sozinho, nada a frente apenas você. E pensava “é isto. É aqui que vou ficar hoje.” Às vezes ligava para minha então namorada quase de madrugada, o pai atendia, assustado, seguida de sua voz sonolenta. No dia seguinte recebia a repreensão. Não entendia. “Na verdade, Dr., diga a ela que eu a mandei à merda, depois diga que estava apenas brincando. O modo dela entender isso será exatamente do jeito que sou.” As necessidades eram simples, e esse foi o meu erro. Absolutamente todos me entendiam com decisões certas, positivas. O erro foi não perceber. Acho que poderia dormir de pé, sempre. Sexta-feira era a glória, mas o desejo profundo de me relacionar prejudicava a razão. Ligava para a garota e tentava de qualquer modo que ela aparecesse. Nunca sairia de casa, mas ela ia. Que pensavam elas? Será possível que só tenha saído com malucas? Bem, o desejo sempre prejudica a razão.
Ela mentia e dizia que me amava. Dizia que me amava. Na verdade, nunca conseguira achar um homem melhor, e não pode. Precisou que eu desprestigiasse a relação a ponto de não ser mais suportável, boa desculpa. Depois, a pancada da decepção. Bem, não conseguia achar um homem melhor.
Sempre me senti mal em tentar conseguir grandes sacadas nos meus textos e na minha vida, incompatibilidade nata. Pensava que havia algo de bom em algum deles, mas depois assistia a qualquer, e isso é o pior de tudo – qualquer Sitcom americana e via que havia mais sacadas bestas em meia hora do que conseguiria produzir em toda a minha vida. Por que diabos então algum daqueles escritores-roteiristas não escrevia um livrinho bobo, daqueles que venderiam bastante numa hora ou outra? Ora, porque ganhavam mais e bem e com hora marcada com os roteiros. Havia razão em dizer que nada era mais amansador do que o salário no final do mês, ou da semana.
O estranho era saber que tudo acontecia de bom, naquela pequenez de satisfações que descrevi, naquela felicidade tranqüila, simples, por causa do modo como me comportava, conhecendo garotas todos os dias, buscando a auto-afirmação no encontro do sexo fácil, do telefonema de desculpas, das piadas rápidas, um CD novo, ao mesmo tempo em que necessitava de continuidade, placidez, retidão. Eram coisas contraditórias, mas poderia ter vivido assim para sempre. Mas, agora, ao menos depois de toda essa bagunça escrita, creio que o que mais deve ter saltado aos olhos, no terreno do absurdo, tenha sido o título deste escrito. Bem, a push and it’s over.

Nenhum comentário:
Postar um comentário