3.12.04

NOs últimos meses vinha reclamando da vida aos colegas de trabalho: Ele precisava mesmo era de um milagre, que de repente alguém na rua lhe oferecesse um milhão de dólares sem perguntas tampouco exigências. Podia ser isso mesmo.

E recebia imediatamente uma repreensão da D. Girósia, secretária do diretor financeiro: - Não blasfeme, isto não seria um milagre. Milagres não servem para satisfazer desejos egoístas. Ele, obviamente e, mais do que isso, realmente, não concordava: A senhora não concorda que o milagre é a expressão máxima da fé? Pois então, se se acredita fervorosamente e sinceramente em algum acontecimento, é muito provável que o milagre aconteça, não? E ele então pensava intensamente nas coisas que lhe faltavam, e rezava por um milagre. Na falta de fé, o que mais preenche o vazio do espírito é ela mesma, a realização, ou como gostava de caracterizá-la. Assim passava seus dias até que a encontrou sem querer e algumas coisas há muito esquecidas se fizeram lembrar. Lembrar mesmo ele lembrava daquela velha piada: - Você gosta de torta de limão? E a resposta: - Há dez anos eu detestava, mas isso não quer dizer nada: há dez anos eu era uma pessoa completamente diferente.

Bem, ser uma prostituta era na maior parte do tempo mais um problema relativo ao fato de ser uma garota de posses em uma família um tanto quanto liberal, mas que no entanto ainda achava que quem nascia preto não tinha possibilidades.
Mas o que mais incomodava na situação era que para aqueles que a rodeavam ela parecia razoável. Só vemos putas razoáveis no cinema; na vida real procuramos mulheres razoáveis para casar.

Mesmo assim os relacionamentos na cidade pequena em que nasceu sempre aconteceram, freqüentemente. As conversas em códigos dos adolescentes, querendo expressar o contentamento de ter tido sexo na calçada da praça da Igreja por baixo de uma saia sem calcinha escondiam o reconhecimento de que talvez, e apenas talvez, tal acontecimento seria um pouco mais improvável caso se tratasse de uma garota de família, realmente, de qualquer maneira.

Na verdade para ele sempre demonstrou certo desvio comportamental em relação ao sexo. Parecia-se mais como se algum dia tivesse sido homem. Apesar da observação um tanto esdrúxula, era como se relacionasse como mulher, mas tendo os mesmos sentimentos de homem, genericamente falando, é bom deixar claro. Aliás, bem claro.
Enfim, dia destes, ele, homem feito agora, mas ainda dado a observações um tanto assustadoras para a maioria da garotas de família que querem na maior parte do tempo te enfiar um anel no dedo do que ter algo enfiado, em suas cabeças, a encontra descendo a mesma rua quase na periferia que todos os dias pegava para ir trabalhar, e exatamente num daqueles dias em que você está se lembrando, saudoso, das menininhas que saíam junto de você no banco de trás daquele carro emprestado parado nas vagas a 45 graus da praça afastada e daquela época que tanto pareceu real em relação ao seu futuro, e que não o encontrou hoje, ao mesmo tempo em que hoje você não mais encontra aquelas épocas, nem ao mesmo aos sábados à noite, quando é melhor acreditar que 5 copos de uísque resolvem o sofrimento que 3 deles fazem seu estômago experimentar.

A primeira pergunta: Quem é ela?

Não é de se estranhar, considerando tempo que foi passado e o tanto de experiências que se experimentou durante todos estes anos, não fosse pela segunda pergunta: Quem sou eu?

Enfim, uma puta mais velha, foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu, para simplicar as coisas.

E, para não deixar de ser um acontecimento inusitado depois que ele a cruzasse sem levantar os olhos evitando um cumprimento, ela, ao atravessar a rua, foi abalroada por um carro saído não se sabe de onde, a contornar a esquina seguinte em alta velocidade e fugindo o mais rápido possível daqueles dois seres estranhos, um deitado no chão preto de asfalto, e o outro segurando uma pasta preta e olhando, estupefato, para o chão.

Pensava, seria esta a representação daquilo que se anuviara em sua mente durante todos estes meses passados em que não encontrava alegria alguma? Teria chegado ao ponto de desejar morrer? Não, besteira, existia um desejo, mas não de morte.
Sentindo-se como aquele bêbado que acaba de fazer uma grande besteira sem saber consertá-la, olhou em volta e viu um telefone público bem ali, pouco depois da esquina pela qual havia passado milhares de vezes, sem nunca o ter percebido. Foi até ele, discou o apropriado 193 e em 15 minutos ela estava já bem no hospital para que a levaram. Ele voltou mais tarde para visitá-la e até hoje se falam.

Depois desse dia o Nacca nunca mais se sentiu confortável em conversar com D. Girósia. Não queria decepcioná-la mais.

Um comentário:

Anônimo disse...

Já li, Oreia. Tenho ainda dúvidas.